SEQUESTRO NO PARAÍSO
FICÇÃO
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CAPÍTULO 5 — O PARAÍSO

— Talvez eu seja seu salvo-conduto! Isso não é motivo para me arrancar os membros! esbravejou ela.

— Desculpe, é que eu estava com o espírito entorpecido, respondeu Henri, examinando a mão ainda crispada.

— Que impressão muito estranha no meu braço. Como se ainda houvesse sangue circulando em minhas veias. Tenho a sensação de estar com a alma enrijecida. Não me machuque mais… Por favor! suplicou ela.

— Em minha defesa, como eu poderia saber que estava machucando você? É a primeira vez que já não tenho corpo. Nem a menor sensação tátil normal… corporal, melhor dizendo.

— Senhor Toutrec, compreendo que o senhor acaba de chegar ao além. Está numa situação delicada e sofre os efeitos da defasagem temporal. Entendamo-nos: não era meu corpo que o senhor atingia, mas minha alma.

— Ah! É verdade que uma alma não sangra. Isso é sensível? Ai! O que foi que você me fez?… Ai!… Estou com dor na ponta do… Foi você quem?… Intimo você a parar, senão torço suas orelhas!

— Eu o belisquei por simples vontade. Imagine agora a minha dor, pensando que a força das suas mãos é comparável ao aperto de um torno. Eu poderia fazer pior do que o senhor. Mas o paraíso não é uma arena de luta.

— Peço que me desculpe. Apenas me prometa que não vai fugir, pediu ele, cuidando para não parecer fraco.

— A promessa é apenas uma condição temporal. Isso não existe no absoluto, pois não tem razão de ser. Portanto, não posso aquiescer à sua proposta. Em compensação, posso me dispor a conhecê-lo. Isso para depor com mais veracidade contra o senhor. Se for o caso… completou ela.

Fingindo ter poeira no terceiro olho, que já quase não aparecia mais, Henri refletia. Assim, dizia a si mesmo: « Nada é maior do que o infinito para encontrar um esconderijo. Eu bem a deixaria partir, mas, se eu for capturado, talvez me façam aproveitar alguns deliciosos séculos em sua companhia. Isso vai esfriar as brasas. » Esfregando suavemente o nariz com os dedos já relaxados das cócegas, um pouco como por malícia, ele observava Marilyn.

— Não vou amarrá-la e lhe deixo o direito de se expressar. A senhora pode até enviar sinais de socorro a quem quiser! Mas não se esqueça de que tenho mais de sete milhões de chances de ser sua meia-lua. Pode até piscar para Elvis Presley, se quiser.

— O Rei? Não há perigo de ser salva por ele.

— O cantor de rock’n’roll é um covarde?

— Não. Mas, assim que chegou aqui… teve uma daquelas crises! Queria ser reencarnado em freixo, para virar um violão acústico. Bom! Agora, o que sugere? perguntou Marilyn, buscando um meio de inverter a posição dominante.

— Então a reencarnação existe? disse Henri Toutrec, surpreso.

— Só para aqueles que a desejam.

— Certo! Por enquanto, você fica comigo. Vamos avançar sem chamar atenção em direção àquelas montanhas de cores vivas. Vamos nadar e nos deixar flutuar nesse rio branco, impunha ele, já em posição de mergulho.

Longe de ser água, a substância exalava aromas de rosa e mel.

— Você realmente quer que a gente mergulhe aí? repreendeu Marilyn, como uma professora irritada. Sua ousadia excessiva controla você! Mergulhar nesse rio equivaleria a tomar banho na sua sopa. Isso é alimento espiritual líquido, vitaminas etéreas.

Ela se calou e o olhou bem nos olhos, mordiscando os lábios.

Um leão passava por ali.

Depois acrescentou:

— Percebo uma certa inquietação… Fique tranquilo, aqui os leões não arranham nem mordem, os insetos não picam nem zumbem nos seus ouvidos.

— Acho que ouvi você mal. Está dizendo que há insetos no paraíso? Já que é assim, diga-me também que há micróbios.

— Micróbios? Não seja ridículo! O paraíso deles são os planetas habitáveis, disse ela, desenhando um sorriso no seu rosto maravilhoso.

— Está bem. Mas voltemos às nossas borboletas… disse ele, retribuindo-lhe o sorriso. O itinerário será simples. Vamos contornar a tigela de sopa… com muita prudência. Isso nos permitirá encontrar refúgio, e nos acalmar… nesses relevos de cores inspiradoras para qualquer pintor fauvista, concluiu Henri, puxando suavemente Marilyn pela mão. Uma primeira vez.

Contato. Emergência de uma energia particular, como o nascimento de uma afeição.

— Admito que o senhor me surpreende, senhor Toutrec. O senhor gosta de artes e cultura?

— Eu não tenho só defeitos, sabia, retrucou Henri, revelando certa suscetibilidade. Na verdade, você não sabe nada sobre mim. Mas eu vou lhe contar, disse ele, olhando para trás.

— As… as… as portas de entrada do pa… paraíso não estão mais ali! gaguejou ele, assustado com o desaparecimento delas.

Ele temia de verdade a intervenção de um esquadrão de anjos aerotransportados respondendo a um chamado de Cascas.

— Elas não se volatilizaram. É como mágica branca, ilusionismo. Elas ainda estão lá. Apesar do grande tamanho, só são visíveis a uma distância de cerca de cinco metros. Esse truque serve para evitar que qualquer um pense no inferno.

Depois continuou:

— Repare… também seria preciso que a porta estivesse aberta… A propósito, você a fechou?

— Não sei. Por que eu faria isso?… Menos risco ainda de dar com a cara nela! brincou ele, pouco se importando com as consequências para almas distraídas demais ou sonâmbulas.