Enquanto isso, a cabeça desnorteada e instável de Rosa dos Ventos havia reencontrado a coorte infernal que ainda lhe restava. Ela procurava fazer-se ouvir por alguns de seus demônios de confiança… chifrudos, que havia alcançado. Demônios que não haviam sido abençoados. Despreocupado, Rosa (ou pelo menos sua cabeça) imaginava que os outros companheiros estavam se divertindo em outra parte do paraíso. Na realidade, todos eles haviam se transformado em anjos sem asas, já que tinham sido abençoados.
— Vocês me reconhecem? Tabarnak!
(Note que essa expressão de raiva é muito comum na América francófona. O que não faz dela uma amiga de Rosa dos Ventos, nem por isso.)
— Meus queridos cus (é assim que ele chama todos os seus subordinados quando está de bom humor…), amanhã será para nós a vitória final, teremos triunfado sobre as forças do bem. A defesa deles era tão fraca que, por assim dizer, não encontramos resistência alguma. Não vejo o que poderia nos prejudicar agora que controlamos boa parte do infinito. Depois, quando tivermos terminado essa tarefa, minha fé… (hum!) muito divertida, confiarei a cada um de vocês, fiéis soldados do mal, um planeta sobre o qual reinarão como os belos retoques que são. Vocês vão se banquetear com os vivos, e eu vou me ocupar dos mortos.
Mas conto com as suas artimanhas e com as suas tentações para que desapareçam os santos, os anjos e as boas almas! Viva o seu chefe, eu mesmo, o general Rosa dos Ventos! Viva vocês, meus queridos cus! Viva as almas degeneradas e os anjos caídos!
Nenhuma reação se seguiu a esse discurso inflamado do general do inferno, até que ele desse uma ordem…
— Agora vocês podem me aplaudir!
Os aplausos explodiram. Seus diabos batiam brutalmente os chifres uns contra os outros. Esfregavam as pontas das caudas e as golpeavam contra as próprias coxas avermelhadas. Soltavam gritos de morte em sinal de aprovação.
— Daqui a pouco, vocês vão se dispersar para procurar e encontrar o que me falta. Do pescoço até os dedos dos pés. Estão vendo? Eu não perdi a cabeça!
Então, de repente, vindo do nada, um estranho animal apareceu no centro da praça.
Era Tio Máxima por meio de sua técnica da zirguilha. Depois de vomitar a si mesmo… – caridade bem ordenada começa por si mesmo –, saiu em seguida de seu nada Flor, que ainda segurava firmemente a boneca vodu na mão. Como uma menininha segura uma boneca pelo braço. Além disso, Tio Máxima procurou esconder o diário pessoal de Rosa dos Ventos, trazido do inferno.
Como Tio apresentava as costas ao diabo, este não pôde notar no momento nem a mulher negra nem o diário. Mas o general acreditou estar alucinando quando percebeu em Tio a ausência de um ânus. Com efeito, como Tio só se alimentava do nada, para que lhe serviria aquela coisa?
À vista desse fenômeno, o general Rosa dos Ventos, ou melhor… sua cabeça, recuou um tantinho… Mas recompôs-se rapidamente para não perder a face, já que era tudo o que lhe restava.
— Quem é você para me interromper? O que está fazendo aqui? berrou o diabo.
Tio estava com medo. Nunca tendo visto o pérfido idiota, rei das chamas… ele o imaginara gigantesco, com uma cabeça repulsiva, a pele toda vermelha, cascos de bode, longos chifres e um corpo atlético. Sem esquecer a nuvem que o seguia por toda parte. Enfim! A imagem arcaica que uma pessoa imaginativa um dia desenhou numa ilusão doentia.
Mas o guardião do nada acreditava piamente que, quando o diabo estivesse presente, um forte cheiro de enxofre encobriria qualquer outro tipo de odor. Ali, cheirava mais a flatulências. Além do fato de que se tratava apenas de uma cabeça! Esses elementos não tranquilizaram nem um pouco mais Tio Máxima, ainda mais porque ele só o via pelo canto do olho. Mesmo que naquele instante não estivesse executando sua zirguilha, estava de pernas para o ar. O nervosismo de se ver diante… do diabo fez com que perdesse o controle que havia adquirido por meio de uma curta prática sobre sua elocução. E assim voltou a gaguejar ainda mais.
— Eu peço, misturo… Meu nome é… O que é que eu digo?! Pontão… Tio. O que é que eu digo de novo?! E eu só estou paspando…
— Pois bem! Você é um grande saco de sopa!
— Não, eu disse: eu só estou passando. O que é que eu digo?!
— Não poderia se virar quando se dirige a mim? disse Rosa, sentindo-se cada vez mais ofendido.
Dizendo isso, à ordem do general, ele se virou nervosamente. Mas, ao girar sobre si mesmo, deixou cair a pérola negra, que foi parar entre diabos que observavam a cabeça de seu chefe trocando palavras com o guardião do nada. Flor não se machucou, mas começou imediatamente a caminhar no meio da multidão sulfúrea, repetindo seu refrão: « É você aquele que eu procuro…, aquele que eu devo?… » Naturalmente, todos mandavam aquela bela tresloucada se danar.
Rosa estava atordoado com a estranha criatura de bico achatado e com sua aparição súbita. Mas a hora da vitória lhe parecia próxima demais para que se deixasse impressionar.
— Você vem de onde?
— Eu venho de nenhugar…, de lugar nenhum. O que é que eu digo!
— Ora, seja lógico! Quando se chega a algum lugar, sempre se vem de algum lugar. Não é verdade?
— Isso é verdade para todo o mudo…, todo o mundo, digo eu.
— Está vendo? Você mesmo acabou de dizer.
— Sim! Mas, papa…, não para mim… O que é que eu digo?!
— Quer bancar o mais esperto? Está bem! Explique-me!
— Antes que você… você visse, que você me visse… O que é que eu digo?! Eu estava aqui?
— Claro que não.
— Você sabia onde eu me encontrava?
— Não, já que eu não estava lá.
— Se você não estava lá, como pode afirmar que eu estava em algum lugar?
— Porque é assim!
— Suponha que eu desapareça num piscar de olhos, da mesma forma que cheguei, eu ainda existiria?
— Mas sim, enfim… hum… É evidente!
— Então eu existiria porque desapareceria?
— Sim, de certo modo!
— E onde eu estaria?
— Sem dúvida, em algum lugar.
— Então, se você afirma que eu existo em algum lugar porque não estou aqui, não poderia também dizer que eu estou em outro lugar.
— De fato!
— Se você pensar em todos os lugares que pode imaginar e eu não estiver em nenhum deles, não diria, ao me procurar: « Eu não o vejo! Ele não está em lugar nenhum! »
— Hum! É possível!
— Está vendo? É isso que eu estava lhe dizendo. Eu venho de lugar nenhum.
— Minha palavra, você quer bancar o mais esperto com o ser infecto que eu sou. Saiba que aqui quem manda na cabeça sou eu. Além disso, devo confessar que estou impressionado com o seu truque de mágica. Eu, que inventei a ilusão, posso lhe confessar que você é talentoso. Aprecio isso ao mais alto grau, acredite em mim! Assim, como estamos dando uma pequena festa neste momento, eu o convido!
Os companheiros Henri, Marilyn, os dois anjos e algumas almas aliviadas haviam se camuflado no meio da multidão de demônios. Haviam se dispersado. Cada um tinha sua zona. Cada um pegava os diabos das últimas fileiras para abençoá-los e convertê-los. Depois, seguia-se o efeito dominó. Todos procediam assim, exceto Henri Toutrec, que saiu das fileiras. Avançou até o grande livro de Rosa, olhando para a cabeça, completamente espantado. Nunca havia imaginado o chefe do inferno com aquele aspecto. Disse a si mesmo que agora só faltava fazê-lo perder aquela cabeça.
Ele abriu o diário ao acaso e começou a traduzir em voz alta.
— Mas este é o meu diário pessoal! Tabarnak!
Henri não se deixou impressionar pela cabeça. « Hoje tive de tomar cápsulas de ferro, porque estou com anemia. » Depois Henri continuou a leitura: « Roubei fogos-fátuos para me divertir bancando o engolidor de fogo. Queimei a campainha da garganta. Ouch! Ai! Dodói! Mamãe! » Virou a página. « Hoje me transformei em humano. Fui a um bordel e pedi a uma prostituta que me chicoteasse com toda a força usando uma pena de avestruz. » E há anjinhos colados por toda parte.
— Quem é você! Tabarnak! Tragam-no para mim!
Rosa mal conseguia encobrir as gargalhadas que ecoavam ao redor.
Entre os poucos demônios que ainda respeitavam o general e que ainda não tinham sido absolvidos, dois deles obedeceram. Arrastaram Henri até perto da cabeça.
Marilyn avistou Flor, que, maquinalmente, vinha para seguir Henri. Ela a empurrou imediatamente para evitar que fosse capturada pelos comparsas de Rosa, de risadas malsãs. Mas, fazendo isso, a cabeça pálida percebeu Marilyn.
— Ei! Eu reconheço essa loira! É o meu sex-symbol preferido! É Marilyn Monroe. Tragam-na também! projetou a boca de Rosa, cheia de saliva malcheirosa.
A cabeça diabólica de Rosa notou Tio, que avançava, preocupado, em direção a seus dois amigos. Crendo tratar-se de mais um truque de mágica, o general interveio, já tendo previsto outro plano para o casal…
— Aproximem esses dois. Sim, o sujeito e a moça. Que não é nada feia. Acabo de encontrar para eles um suplício especial.
— É que eu queria engoli-los! Engoli-los inteiros! dizia Tio, pensando em levá-los de volta ao nada para salvá-los das garras… dos espinhos de Rosa.
— Não! De jeito nenhum!
Então o general esticou o nariz, apontando para uma pedra chata, de tonalidade cinzenta, e deu uma instrução cortante:
— Levem a bela loira, assim como o feioso baixinho. Coloquem-nos sobre esse palco natural. Eles já estão nus, acho isso provocante. Isso me agita bastante a saliva.
Empurrados, atingidos em seu amor-próprio, Henri e Marilyn se viram, em poucos segundos, no tempo de uma chama, exatamente onde Rosa dos Ventos havia indicado. Para salvar o outro, representavam o papel de pessoas que se detestavam. Davam realmente a impressão de serem incapazes de se suportar. Não pararam de representar. Sua atuação era tão convincente que o próprio Tio se entristecia e se perguntava o que poderia ter acontecido.
— O que fazemos com eles agora, vossa desonra? perguntava Pelo de Chifres, um ajudante de Rosa que havia arrastado Marilyn até aquele pódio, permitindo-se ainda alguns gestos deselegantes.
— Esvaziem o palco, que eu quero me dirigir a essas pessoas que se detestam (a atuação dos amantes tinha sido muito convincente). Adoro ver seres que se odeiam. Isso é um deleite para mim, comentava a cabeça de Rosa, flutuando sobre um trono portátil feito de um cupinzeiro abandonado.
Pedindo a um demônio mordomo que lhe coçasse a barbicha, ele refletiu por alguns instantes. Depois ordenou…
Os companheiros Henri, Marilyn, os dois anjos e algumas almas aliviadas haviam se camuflado no meio da multidão de demônios. Haviam se dispersado. Cada um tinha sua zona. Cada um pegava os diabos das últimas fileiras para abençoá-los e convertê-los. Depois, seguia-se o efeito dominó. Todos procediam assim, exceto Henri Toutrec, que saiu das fileiras. Avançou até o grande livro de Rosa, olhando para a cabeça, completamente espantado. Nunca havia imaginado o chefe do inferno com aquele aspecto. Disse a si mesmo que agora só faltava fazê-lo perder aquela cabeça.
Ele abriu o diário ao acaso e começou a traduzir em voz alta.
— Mas este é o meu diário pessoal! Tabarnak!
Henri não se deixou impressionar pela cabeça. « Hoje tive de tomar cápsulas de ferro, porque estou com anemia. » Depois Henri continuou a leitura: « Roubei fogos-fátuos para me divertir bancando o engolidor de fogo. Queimei a campainha da garganta. Ouch! Ai! Dodói! Mamãe! » Virou a página. « Hoje me transformei em humano. Fui a um bordel e pedi a uma prostituta que me chicoteasse com toda a força usando uma pena de avestruz. » E há anjinhos colados por toda parte.
— Quem é você! Tabarnak! Tragam-no para mim!
Rosa mal conseguia encobrir as gargalhadas que ecoavam ao redor.
Entre os poucos demônios que ainda respeitavam o general e que ainda não tinham sido absolvidos, dois deles obedeceram. Arrastaram Henri até perto da cabeça.
Marilyn avistou Flor, que, maquinalmente, vinha para seguir Henri. Ela a empurrou imediatamente para evitar que fosse capturada pelos companheiros de Rosa, de risadas malsãs. Mas, fazendo isso, a cabeça pálida percebeu Marilyn.
— Ei! Eu reconheço essa loira! É o meu sex-symbol preferido! É Marilyn Monroe. Tragam-na também!
A cabeça diabólica de Rosa notou Tio, que avançava, preocupado, em direção a seus dois amigos. Crendo tratar-se de mais um truque de mágica, o general interveio, já tendo previsto outro plano para o casal…
— Aproximem esses dois. Sim, o sujeito e a moça. Que não é nada feia. Acabo de encontrar para eles um suplício especial.
— É que eu queria engoli-los! Engoli-los inteiros! dizia Tio, pensando em levá-los de volta ao nada para salvá-los das garras… dos espinhos de Rosa.
— Não! De jeito nenhum!
Então o general esticou o nariz, apontando para uma pedra chata, de tonalidade cinzenta, e deu uma instrução cortante:
— Levem a bela loira, assim como o feioso baixinho. Coloquem-nos sobre esse palco natural. Eles já estão nus, acho isso provocante. Isso me agita bastante a saliva.
Empurrados, atingidos em seu amor-próprio, Henri e Marilyn se viram, em poucos segundos, no tempo de uma chama, exatamente onde Rosa dos Ventos havia indicado. Para salvar o outro, representavam o papel de pessoas que se detestavam. Davam realmente a impressão de serem incapazes de se suportar. Não pararam de representar. Sua atuação era tão convincente que o próprio Tio se entristecia e se perguntava o que poderia ter acontecido.
— O que fazemos com eles agora, vossa desonra? perguntava Pelo de Chifres, um ajudante de Rosa que havia arrastado Marilyn até aquele pódio, permitindo-se ainda alguns gestos deselegantes.
— Esvaziem o palco, que eu quero me dirigir a essas pessoas que se detestam (a atuação dos amantes tinha sido muito convincente). Adoro ver seres que se odeiam. Isso é um deleite para mim, comentava a cabeça de Rosa, flutuando sobre um trono portátil feito de um cupinzeiro abandonado.
Pedindo a um demônio mordomo que lhe coçasse a barbicha, ele refletiu por alguns instantes. Depois ordenou…
— Ei!… Você, Monroe! Dê uma bofetada no abortinho!
— Isso me dá prazer! gritou Marilyn, batendo com força em Henri, pensando que só havia tocado a aura dele. É preciso dizer que, desde a invasão, nem tudo ainda havia voltado ao normal. Um pouco como uma pane elétrica geral. Nem todos os clientes são religados ao mesmo tempo.
Marilyn tentou fazer Henri entender indiretamente que estava simulando o ódio. Tocava a testa com o indicador. Um pouco como um aviso.
— Dring! Dring! Ei, idiota! disse ela… Há um cérebro sob essa cachola?
Depois, bateu com os nós dos dedos no topo da cabeça de Henri.
— Toc! Toc! Toc!… Ei! Ô! Tem alguém me ouvindo aí?… Alô! Alô! Alô! lô… lô… Não tem nada, mas tem eco! Oh! Tem miolo estragado!
— Eu não sou surdo, entendi, sua boca enlouquecida! respondeu Henri, com os olhos enormes como bolas de gude.
Por linguagem angelical e telepatia, ele lhe fez entender que, se ela não voltasse a bater nele imediatamente, então ele mesmo o faria.
Vlan! Henri pulou com aquela bofetada, talvez não sincera, mas mesmo assim marcante. Sua bochecha avermelhada o confirmava.
— Agora, alternadamente, mais rápido e mais forte! exigiu dos amantes o chefe de todos os diabos, que gozava de todo o seu mal-estar.
Sem hesitar, pensando apenas em salvar a alma do outro, cada um obedecia, simulando a febre de brutalizar e a antipatia crescente. Se ainda tivessem seus corpos, o sangue teria circulado como torrentes por seus rostos. Nessa troca, o ritmo dos golpes foi mudando tanto e tanto que acabaram se esbofeteando simultaneamente. O alcance violento dos golpes os lançou ao chão como em perfeita sincronização.
Que pena, uma falha de aura estava terminando exatamente naquele instante. Eles teriam sofrido menos.
Apesar dos latidos e dos berros do general diante daquela queda, pois ele não podia aplaudir, esse suposto escândalo gestual começava a entediá-lo. Satisfeito com o que tinha visto, sentindo agora um prazer menor diante daquele ódio tão bem simulado… (« ele se levantou do assento… »), erguendo a cabeça… e gargalhando a plenos pulmões, emitiu outra ordem… enquanto propagava um daqueles ventos… pela boca. Essa incongruência lhe deu uma ideia. Pensou: « Se eu der ao meu corpo a ordem de peidar, poderei reencontrá-lo graças ao cheiro pestilento que ele vai soltar. »
Depois, todo sorridente, ordenou…
— Agora… forniquem! E mexam-se!
O casal, que já se encontrava frente a frente, parecia paralisado. Nenhum dos dois esperava por aquela exigência libidinosa. Sentindo a necessidade de se perdoar e de se jogar nos braços um do outro, aproximaram-se lentamente. Pouco antes de se tocarem, viraram-se e olharam para a cabeça ignóbil, certificando-se de seus desejos.
— Você quer que nós… disseram, um depois do outro, Marilyn e Henri.
— Se não fizerem isso, encontrarei um meio de forçá-los. Entendido! Então, executem! Vocês serão ainda mais repugnantes e repulsivos se se beijarem! Ha! Ha! Ha!… Melhor ainda, sei que vocês vão querer vomitar um sobre o outro se fizerem isso lentamente, acariciando-se no ressentimento. Sobretudo depois de terem se batido, esbofeteado como acabaram de fazer. Tabarnak! Como eu posso amar o ódio! Uma viva animosidade nunca fez mal à raiva, até onde eu saiba! É incrível! Vamos, o que estão esperando?
De olhos fechados, Marilyn e Henri se beijaram com paixão, numa intensidade verdadeira, mas simulando nojo. Como alguns daqueles beijos banalizados em sites pornográficos terrestres. Rosa não via nada além do fogo. – O que não o desagradava nem um pouco. Digamos assim. Depois, cúmplices em seu amor, acariciaram seus corpos com desejo, imitando uma certa lassidão que prendia o diabo em seus fantasmas. Levaram sua ousadia ao ponto de se provarem… durante o abraço nada totalmente… obrigado. O diabo salivava diante do que acreditava ser uma hostilidade sexuada. Depois, ao preâmbulo carnal sucedeu a antecâmara do orgasmo final. Henri penetrou em Marilyn. Marilyn acolheu Henri. Ela o apertava, ele se expandia. Ela o deixava fugir, ele voltava sem ter partido. Como uma sereia, seu ventre chamava o amante, que encalhava em suas terras úmidas… Depois, ela se erguia como uma onda para que ele mergulhasse novamente. Henri navegou em direção à embocadura daquela baía de maré crescente. Misturavam suas auras sem que o general Rosa percebesse.
Uma luz pareceu surgir em torno de Flor. Os amantes haviam sido apanhados pelo próprio jogo. Nada mais os deteria. Tudo ao redor deles se desfazia. Nada os desviava de sua alegria aérea. O movimento prosseguia com ainda mais força. Seu ritmo lembrava o da águia em voo. A velocidade aumentou, assimilando-se quase imperceptivelmente ao bater de asas do falcão. Henri voava, Marilyn planava. Ela se deixava levar por seu sopro, depois o seguia. Respiravam como quando estavam vivos.
Como um casal de gansos em migração, sem perder o norte, dirigiam-se em linha reta ao lugar que os acolheria. Suas rotas percorridas, quase no fim, seus votos metamorfoseados em pomba anunciavam a mensagem última. A eternidade pareceu de repente se comprimir em suas almas. Beijaram-se ao final sem esconder o verdadeiro sentimento. Não, porque já não podiam mais.
Rosa compreendeu que havia sido enganado. Estava prestes a reagir e condenar aqueles amantes a suplícios horríveis, quando Flor iluminada se aproximou. Ela segurava a boneca vodu e havia recomeçado a tirar agulhas.
— Você aqui! Tabarnak! Me dê essa boneca. Ela é minha.
Mas Rosa, sem ter o corpo ao alcance das mãos…, não podia pegar nem muito menos segurar o objeto. Tampouco podia fazer intervir qualquer um de seus cúmplices, pois nenhum deles tinha mais chifres. Para seu grande desespero, todos os seus diabos haviam se tornado humanos.
Quanto mais Flor retirava agulhas, mais parecia tomar consciência. Quanto mais recuperava a consciência, mais luminosa se tornava. Quando essa luz se fez intensíssima, mais viva que o fogo, mais brilhante que o sol, uma esfera de energia, como se contivesse todas as do universo, coroou-a e a envolveu.
Essa magia era tão imponente e incontornável que até Marilyn e Henri, sem se soltarem, não conseguiam deixar de examinar e admirar o prodígio.
— É lindo demais! Aliás, olha, até Rosa dos Ventos está atônito.
Depois, a esfera, sem deixar de resplandecer, sem deixar de oferecer àqueles espectadores toda a abundância de ondas luminosas que difundia, imobilizou-se acima do casal.
Rosa, inquieto, angustiado, tornou-se histérico.
— O que é isso agora! Não basta aparecer um energúmeno vindo de lugar nenhum. Não basta eu ser medusado, enganado por uma atriz e por um fedelho. Mas ainda por cima há gente querendo fazer fogos de artifício. O fogo aqui sou eu quem cuida! Se vocês não sabem disso, vou enfiar isso no traseiro de vocês! Vocês vão saber muito bem quem é que carrega a tocha por aqui!
Já branco, Rosa ficava, diante dessa revelação, ainda mais pálido de estupor.