UM RAPTO NO PARAÍSO
FICÇÃO
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CAPÍTULO 8 — O REFÚGIO

Voava-se bem baixo no paraíso. Os esquadrões de Rose des Vents deslocavam-se sem obstrução nem resistência, de cornos bem abertos. Com exceção dos infernais, nada voava, nadava ou caminhava. Nem um mosquito. Nem um anjo. Nem um santo. Apenas aquele grupo que se encontrava no jardim terrestre…

— Eh! Ouve esses risinhos sádicos, ao longe? — interrompeu vivamente Henri, abreviando assim os ensinamentos do criador de adágios.

Depois, com a mão aberta colocada atrás da orelha, olhou para Marilyn como se a convidasse a escutar. Ambos pareciam assustados com aqueles ruídos cada vez mais nítidos e demoníacos.

— Ouço sons anormais… Estou convencida de que, com o tempo decorrido desde o meu rapto, os anjos já devem ter sido alertados. Mas isto… são risos sádicos — dizia Marilyn, nervosa.

Uma expressão de desencanto e de cólera surgiu no rosto ensombrado de Tonton Maxime.

— Foi raptada? Quem se atreveu a fazer tal coisa? — bramiu o híbrido, conseguindo contudo conter-se.

— Fui eu — confessou simplesmente Henri, apercebendo-se de que já não tinha escapatória.

Em sua defesa, alegava com convicção que se tratara de um simples desastramento… de um erro de julgamento. Mas também, e sobretudo, que fora amaldiçoado por um padre que não suportava bem o vinho da missa. Sobretudo a zurrapa!

Com uma pata curta, Tonton Maxime esfregou o bico com pequenos toques, como para refletir melhor sobre a situação.

— Não me cabe julgá-lo, senhor Henri. Sabia que o nosso Criador adora a arte, e não como mero diletante, acredite em mim? Muitas vezes tive ocasião de admirar, mas sobretudo de aprender diante das suas obras-primas. Expõe trabalhos originais, mas também faz cópias, e devo dizer que muito bem conseguidas. Ao olhar para as suas obras, aprendi a compreender em vez de condenar. Além disso, não me foi concedida a faculdade de avaliar as faltas dos outros, como fazem os anjos à entrada.

— Agradeço a sua compaixão, mas o que vai fazer de mim agora? — temeu Henri.

Tonton Maxime ia dar a sua resposta quando foi interrompido por Casca de Batata. Este aproximava-se desolado, de gatas. Tentava pôr a bater as suas asas amolecidas e pegajosas.

O seu olhar deteve-se de imediato em Henri.

— Já não podemos fazer nada contra si, senhor Toutrec. Venceu-nos por completo! O inferno invade, submerge e domina o paraíso! Miséria das misérias!!! — pronunciou penosamente o anjo Casca de Batata, erguendo-se com dificuldade.

Por sorte, tinha apenas pouca melaça nas asas. Como os anjos preferem normalmente voar, aquela marcha forçada deixara-o exausto. Todo o cansaço e toda a tristeza do céu não teriam sido suficientes para o impedir de encontrar Henri Toutrec. Estava convencido de que o pequeno homem fazia parte dos cálculos sulfúricos da invasão, do ataque-surpresa.

— Como foi que me encontrou? — acrescentou Henri, intrigado.

— Reconheci-o nos inukshuks e segui-os.

— Escute, senhor Casca, eu não lhe quero mal nenhum. Não é por eu ter chegado até aqui que ataquei o paraíso — defendia-se Henri, convencido de que os diabretes andavam resolutamente à sua procura.

— A verdade é que Rose des Vents e o seu exército estão a semear a desordem e a miséria por todo o paraíso! A porta!… Entraram pela porta! Falhámos na nossa tarefa! Somos nós que deveríamos ocupar o seu lugar, senhor Toutrec! Nós! — chorava o anjo, tentando recuperar o fôlego.

Todos estavam petrificados de horror. Até Henri, que nunca chegara a ter a felicidade de desfrutar abertamente do paraíso. A mulher quebrou o silêncio e consolou o anjo ferido.

— Tudo isto é culpa de todos nós. Mas em que estado está você? Não se sinta humilhado. Não chore. Reanime-se — tentava encorajar Marilyn, agachada perto dele. E ela, por empatia, deixava cair lágrimas sobre os cabelos do anjo e acariciava-os suavemente.

— Dor meio aliviada predispõe à felicidade — forjou Tonton Maxime, com maior ou menor êxito, procurando lançar algum bálsamo sobre aquele instante carregado de desolação.

— Diga a Toutrec que não tem de fugir. Está em casa, o inferno é aqui — sussurrou ligeiramente o anjo ao ouvido de uma Marilyn compassiva.

— Com todo o respeito, Casca, eu não mereço o inferno. Mesmo que afirmasse que sou digno de me instalar ao quente neste caos. Mesmo que esse fosse o meu destino. Tudo o que me importa é estar com Marilyn — exprimia, com sinceridade, Toutrec, que ouvira as sombrias confidências do anjo.

— Nada me obriga a ser a sua concubina. Sobretudo para toda a eternidade — observou Marilyn secamente. Ela compreendia cada vez menos a insistência desconcertante da alma do seu cortesão e raptor.

Seria o contexto de um paraíso amaldiçoado pela presença dos demónios que a tornara de repente tão dura?

— Não vai começar outra vez com isso — retorquiu Henri.

A compreensão instintiva das coisas tornava-o mais brilhante. Pensava melhor. Compreendendo que tinha coisas a provar e a fazer-se perdoar, Henri mobilizava todos os seus recursos, num gesto de valorização interessada.

— Vamos combatê-los! Vamos destruir esses monstros, esses dragões! — lançou ele, apontando para todos os lugares de onde vinham os ruídos desagradáveis, como se fosse Dom Quixote.

Esses esforços surpreenderam o anjo, que recuperava gradualmente as forças. Depois de ter descrito o que testemunhara, esperava que Henri Toutrec tentasse esquivar-se ou até atacá-lo. Mas não fazia nem uma coisa nem outra. Estava a passar a prova.

— A ouvir esses colecionadores de forquilhas manifestarem a sua alegria, hão de querer regar a coisa dentro em pouco. Poderíamos aproveitar para deitar abaixo alguns deles. Que acha de prepararmos uma guerrilha? — sugeriu o anti-herói.

O anjo, recuperando os sentidos, começava a mirar Tonton Maxime, cujo aspeto físico o deixava cada vez mais perplexo.

— Gostaríamos de saber se é um transfuga do inferno? — perguntou sem delicadeza, procurando tranquilizar-se, correndo o risco de lançar um frio no ambiente.

— Os anjos não comem cocos pela casca! O meu nome é Tonton Maxime. Não percebo o que o embaranha… Que digo eu?! Incomoda. E vocês não são melhores, a falar sempre como vários. Como fazem num exame de consciência? Dizem « cometemos um erro… » ou « cometi uma falta de pretensão? »

— Nesses momentos, falamos na terceira pessoa. Usamos o « ele ». Depois dizemos « ele fez uma pequena asneira… » A Ordem dos Anjos achou que isso nos evitaria remorsos ou culpa. Mas esta tragédia aproxima-se demasiado do apocalipse para nos poupar à responsabilidade — respondeu Casca de Batata, desviando o rosto para enxugar uma lágrima.

Apesar da dor, da gravidade da situação e das penas em mau estado, o anjo lançou uma piscadela divertida ao pequeno homem. Queria, através do humor, apoiar a ingénua temeridade demonstrada por Henri.

Vivamente, Tonton Maxime soltou uma sugestão espantosa, quase uma intenção inimaginável.

— Vamos, os quatro, refugiar-nos em minha casa, no vas… Que digo eu?! No vazio. No nada.

— Nós!… Nós nem sabíamos que o nada existia! Nós… Nós… — balbuciou o anjo, aturdido.

— Acham mesmo que é hora de tergiversar? Não dispomos de milagre nenhum para sair disto! — apressaram-se a intervir de novo, em duo, Marilyn e Henri.

— Na minha grande mo… Que digo eu?! Na minha grande boca, depressa.

— A sua boca? — espantaram-se os companheiros de infortúnio.

— Quê? Não a acham suficientemente grande e acolhedora? Eu vou esvaziar a minha mente para me aproximar do nada. Saltarão para dentro da minha boca. Depois virar-me-ei ao contrário a partir do fundo das nádegas, sem esquecer as pa… Que digo eu?! As patas. Depois, evitando sufocar-me… o resto do meu des… Que digo eu?! Do meu corpo… até ao bico, que virarei por último. Finalmente, quando eu já não for nada, encontrar-nos-emos no centro do nada. Restará apenas um pequeno buraco do tamanho de um ínfimo grão de pó no lugar do meu desaparecimento, quando eu já não for. Não tenham medo! Mesmo que eu esvazie a cabeça, tenho a minha amiga Clarence. Ela é a minha pequena aranha no teto… e, quando já não formos mais do que um abismo sem fim, ela tecerá uma teia sobre o pequeno buraco para me impedir de engolir con… Que digo eu?! Moscas. É isso a que eu chamo a minha zirgouille!

Os três estavam fascinados, mas só Henri ainda encontrava maneira de provocar e apanhar Tonton Maxime.

— Já percebi. É como virar as suas meias do avesso em bola para as arrumar.

— Eu não tenho estômago! Cá dentro, tudo é va… Que digo eu?! Tudo é oco. Um oco incalculável. Na verdade, alimento o vazio com a minha presença quando estou dentro dele. E, por minha vez, alimento-me do seu vazio. Sobretudo quando tenho uma existência aparente, como aqui e agora diante de vocês.

— Complicado!… Estaremos ausentes ou presentes no nada? — procurava compreender Marilyn, coçando a alma de inquietação.

— Vocês serão e não serão, sem serem completamente uma coisa ou outra. Havemos de comunicar uns com os outros por lá… Que digo eu?! Pelos sonhos! Só o sonho consegue acomodar-se ao nada — explicava Tonton Maxime da melhor maneira possível, com toda a lógica de que era capaz.

— Nós… Nós ouvimo-los aproximarem-se a passos largos. Nós… Nós achamos as suas explicações enriquecedoras e fascinantes, mas intriga-nos saber em que momento poderemos esconder-nos — tremelicava o anjo.

— Parece que este canto do paraíso está protegido. Mas por quanto tempo? Mais cedo ou mais tarde as hordas de demónios sentirão a nossa presença — dizia Marilyn, angustiada, analisando a situação como podia.

A resposta foi imediata. Vozes estridentes e roucas, muito perto.

— Já está! É o fim, descobriram-nos! — exclamou em surdina Marilyn, apavorada.

— É agora! Agora é que eu vos levo. Virar-me-ei do avesso por dentro logo a seguir. Vamos… saltem! Não receiem nada! — ordenou Tonton Maxime que, empurrado pelo alarido ali tão perto, revelava a anormal extensibilidade da sua boca.

O híbrido, guardião do nada, tinha, literalmente, uma goela enorme… Houve delicadezas, houve até receios e dúvidas perante a perspetiva de serem engolidos… Mas, como disse Marilyn, a primeira a refugiar-se no nada:

— Só há uma saída… Exit to nothing!

O anjo entrou em segundo lugar, recitando salmos e abanando ainda a cabeça em arrependimento. Henri, o último a lançar-se para dentro da goela… de Tonton Maxime, assobiou com bravata, julgando impressionar Marilyn, que já não o ouvia. Depois, Tonton Maxime virou-se sobre si mesmo.

Uma fuga conseguida por um triz.

Alguns segundos mais tarde, numerosos demónios, do mais sórdido que havia, tinham conseguido infiltrar-se no jardim terrestre, correndo em todos os sentidos como caçadores de prémios.

Rose des Vents, transportado pelos seus e todo sorridente sob a sua barbicha de adolescente, rugia de vaidade. Diz-se que o tempo apaga muita coisa. Mas a esse ponto!? Rose não reconhecera o jardim do Éden que frequentara, na juventude, sob a forma de um réptil convincente.