UM RAPTO NO PARAÍSO
FICÇÃO
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CAPÍTULO 11 – AS FOLHAS DE VIDEIRA

Os quatro, cuja coragem e vigor não esmoreciam, teriam gostado de avançar profundamente e com bravura por um corredor em ziguezague. Não podiam evitar o fogo. Algumas zonas abrigavam chamas impressionantes e extremamente perigosas, que Clarence não conseguia controlar. Por mais que tecesse e tecesse. Sem resultado.

Seria o medo que sentiam? Os olhares de Marilyn e de Henri cruzaram-se…

— Peço-lhe desculpa por tudo o que lhe possa ter feito ou dito de incorreto. Apesar do livre-arbítrio, a culpa é toda desse general Rose des Vents — confessavam reciprocamente Marilyn e Henri. Deram um beijo simples, lento e doce, como se quisessem ligar-se um ao outro.

Um gesto banal. Um resultado alucinante. As chamas davam a impressão de se mover, de recuar, de se afastar, ou até de se apagarem completamente e desaparecerem daquele lugar maldito.

O inferno ardia cada vez menos, até à extinção de todas as chamas. A sua temperatura foi descendo mais e mais, até se assemelhar à do paraíso.

— Sabe no que acreditamos, Tonton Maxime? — interveio o anjo, radiante. — O amor pode destruir completamente o inferno. Se é que já não o fez…

— Interessante! Mas vê aquela grade ali ao longe, mais acima? Que digo eu ainda?! Aquela grelha corroída. Vamos descobrir o que há por detrás dela. Vem para o teu teto, Clarence — concluiu Tonton Maxime, abrindo a sua boca flexível, satisfeito por ver que a aranha lhe obedecia finalmente.

— Não faço ideia de onde isso nos poderá levar. Mas vamos lá ver, antes de sairmos daqui — avançou bravamente Marilyn. Depois acrescentou:

— Não vejo guarda nenhum. Toda a corja dos malvados parece ter desaparecido. Já não há nem sombra de uma brasa.

Com extrema prudência, aproximaram-se da porta de ferro. Era tão larga e tão alta como as portas do paraíso. Por cima, havia uma inscrição em graffiti preto sobre cinzento. Como se tivesse sido escrita com um forcado e fuligem. « Nega, quem nisso bem pensa! » traduziu Henri.

Verificação após verificação, constatando que já não rondava por ali nenhum Cérbero malicioso, atravessaram-na, entreabrindo lentamente as portas. Para finalmente observarem o outro lado, sem risco. Ali estavam todos os condenados, todas as almas atormentadas. E também os eleitos do paraíso, os santos e os seres piedosos que o general do inferno ali lançara por teletransporte. Todos transportados por Rose logo no início da sua invasão do paraíso, como se estivesse a construir um monopólio inútil.

Todas aquelas pessoas que avistaram passeavam nuas. Ou quase nuas. Cada uma trazia uma folha de videira, bem à mostra, colocada sobre o terceiro olho. Iam de umas para as outras, fazendo pedidos.

Para se camuflarem, o anjo e Marilyn também se puseram nus. Henri já o estava. Tonton Maxime reparou em folhas de videira empilhadas junto das portas. Os quatro colocaram uma na testa.

— Não sei se é o lugar, nem sequer o momento, mas acho-a bonita, Marilyn!

— Obrigada, sabe… você tem encanto. No fim de contas, também o acho bonito, apesar da sua pequena estatura e da sua coisinha surpreendente.

— Hum… Vamos ver se estas pessoas têm algo a revelar. Pormenores saborosos que nos possam ser úteis e a Rose… fatais.

De súbito, um homem aproximou-se de Marilyn.

— É você aquela que eu procuro, aquela que devo? — dizia esse condenado de olhos lívidos, sem mostrar qualquer emoção.

Sem perceber absolutamente nada, ela respondeu apenas com um breve não, quase mendigado. Para evitar brusquidão, não desenvolveu nem a estranha pergunta nem a sua resposta curta.

Uma mulher que Toutrec conseguiu associar à história europeia aproximou-se de Henri e perguntou-lhe:

— É você aquele que eu procuro, aquele que eu devo?

— Não, Lucrécia Bórgia! Não creio que o seja.

— Porque me responde dessa maneira? — interrogou a sulfúrea Hispano-Italiana que Toutrec reconhecera. — Quem é Lucrécia Bórgia? E porque não responde apenas não? É você o diabo?

Graças à sua compreensão instintiva das coisas, Henri conseguia conhecer a identidade de quem tinha diante de si.

— Não!

Como se essa resposta sucinta tivesse respondido a todas as interrogações de Bórgia, ela parava de novo mais adiante, fazendo a mesma pergunta a outro condenado entre tantos. « É você aquele que eu procuro, aquele que eu devo? » E recebia um não do seu interlocutor, com uma firmeza desconcertante. Depois prosseguia a sua prova de perguntas.

Henri e Marilyn, o anjo e o guardião do nada cruzaram-se com dezenas e dezenas de condenados. Sempre a mesma pergunta, a mesma expressão de lassidão e de desnorteamento da memória.

Nem a mais ínfima distinção subtil nas palavras ou na entoação uniformizada. Havia apenas um castigo no inferno: procurar a alma gémea por toda a eternidade. A famosa meia-lua.

— Mas o inferno é horrível! Pior do que sofrer com o fogo. Estão condenados a procurarem-se um ao outro para toda a eternidade! As chamas que vimos são apenas teatro!

Com estas palavras de Marilyn, um rasgo de génio atravessou os olhos dos quatro aventureiros. E sem dizer palavra, começaram a retirar delicadamente as folhas de videira de algumas almas ali perto.

Mal a folha de videira era retirada, a consciência da sua pessoa, do seu ser específico e excecional, regressava-lhes claramente à alma. Assim, Henri, que a retirara a Bonnie, em vez de ouvir « É você aquele que eu procuro, aquele que eu devo?… », ouviu… « Onde está Clyde? Tenho de o reencontrar, arrependo-me do mal que fiz; e amo-o. »

— Esperem! Vão reencontrá-lo, mas não agora. Precisamos da sua ajuda, Bonnie. Se quiser encontrar Clyde, retire todas as folhas de videira que puder. Faça isso até estar tudo acabado. Façam-no repetindo o que acabo de pedir e sem fazer perguntas. Depois regressem todos, o mais depressa possível, para junto de Tonton Maxime, o ser com bico de ornitorrinco. Ide e multiplicai-vos! — lançou ele sem se dar conta.

Assim, de forma exponencial, todos esses seres saíram da sua inocente letargia. Alguns casais tiveram a sorte de se reencontrar instantaneamente. Os seus Lulums voltavam para eles.

— Talvez a eternidade seja absoluta, mas não o número dos infelizes que ocupam o inferno e dos que ocupam o paraíso! — observou Marilyn.

Quando todos foram libertados, ecoaram no inferno miríades de risos. Eram os da liberdade. Aquele lugar maldito nunca tinha conhecido uma felicidade tão sentida, exceto talvez a de Rose des Vents e dos seus vis acólitos.

— Nós amamos-vos! Salvaram-nos do tormento! Temos de sair daqui!

Depois, uma alma aproximou-se das de Marilyn e Henri. No seu rosto lia-se uma ansiedade profunda.

— Pronto, eu e as outras almas fizemos exatamente o que queriam.

Depois, a pessoa parou, franziu o sobrolho e retomou…

— Mas há qualquer coisa que não bate certo.

— Qual é o problema? — disseram Marilyn, Henri e também Casca de Batata, que acabava de se juntar a eles.

— Há uma alma a quem tirámos a folha de videira, mas ela continua a fazer a pergunta que vocês sabem.

— Onde está ela? — perguntaram Henri e o anjo.

— Certamente não muito longe daqui. Ainda há pouco tive de lhe responder não. Ah! Ali, vejam. Está a fazer uma pergunta a Napoleão, que está com Josefina.

Diante do célebre militar estava uma mulher negra de extraordinária beleza. Um ser cujos traços finos e subtis teriam podido fazer dela uma lenda na Terra, se tivesse sido rainha.

Tê-lo-ia já sido?

Henri ficou fascinado com o rosto e o corpo magnífico daquela mulher. A pele da sua alma… (ousemos dizê-lo assim) era perfeita.

Marilyn também olhava, mas com certa apreensão. Um leve ciúme, talvez…?

O evidente deslumbramento de Toutrec e a ansiedade de Marilyn foram interrompidos pelo anjo. Quanto a Tonton Maxime, aquecia a boca com um propósito muito preciso.

— Não nos ocupemos por agora do seu mal. Quando chegar o momento, havemos de encontrar alguém que a complete.

Devolver ao paraíso a serenidade, isso é que importa — acrescentou o anjo, esfregando as mãos.

Depois, Henri, que ainda tinha a boneca vodu na mão, entregou-a à bela númida. Ela não a recusou e deixou de fazer perguntas, concentrando-se no objeto maléfico como se não passasse de um simples brinquedo.

Casca de Batata, Marilyn e Henri olharam na direção de Tonton Maxime:

— Está na hora de a abrir bem! Muito bem! Antes que Rose des Vents volte.

— Não receio poder integrá-los a todos no nada. Há lugar para todos e muito mais, sem fim — disse ele, alargando a boca mais do que o necessário para que todos entrassem sem criar engarrafamentos.

— Rose des Vents prova que é muito esperto, o malvado! Demasiado poderoso para nós os quatro! Mas não o suficiente para todos nós! — exclamou em voz alta Henri, levantando um braço, mão aberta. Como se estivesse a sinalizar ao grupo de almas apaziguadas que se preparassem.

— Vou transportar-vos a todos para o paraíso pela minha zirgouille! — exclamou Tonton Maxime.

— Pela quê, já agora? — perguntou Henri.

— Sim! Mas que raio é isso? — clamaram algumas almas curiosas.

— A zirgouille é o nome que dei a este movimento que me permite passar do nada para outro mundo, ou vice-versa, engolindo-me ou desengolindo-me. Se eu fosse cozinheiro, teria dado este nome a um pra… Que digo eu?! A um prato.

Todos embarcaram para o nada pela zirgouille de Tonton. Ninguém acreditou nisso ao princípio. Alguns estavam receosos. Só à medida que a multidão dos resgatados ia entrando é que compreendiam a possibilidade de viajar por ali. Era previsível: o vazio absoluto é imenso e perturbador.