UM RAPTO NO PARAÍSO
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FICÇÃO
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CAPÍTULO 17 – FLOR

Flor surgiu naquela esfera, mais brilhante e mais consciente do que toda a assembleia reunida. Era ela. A negra de encantos requintados. Flor em energia.

— Rosa! Rosa dos Ventos!… Porque perturbaste a paz do paraíso? Porque me enganaste? Porque me ludibriaste, raptaste, levaste e aprisionaste no teu inferno, com a ajuda de uma boneca vodu? Tinhas-me dito que te arrependias de tudo o que tinhas feito. Eu confiara em ti. No entanto, sabias que eu não consigo reagir quando assumo uma forma que acabei de criar e que, apesar da paixão que me enfeitiça durante as minhas criações, essa ação me esgota. Felizmente, o amor incondicional destes dois seres despertou-me do meu torpor, da hipnose, da ausência de presença de espírito em que me tinhas mergulhado!

A mulher negra calou-se por alguns instantes, como se quisesse levar Rosa dos Ventos, isolado, a refletir. Todos os diabos que tinham sido transformados em anjos sem cauda olhavam, pasmados.

Quase toda a multidão se interrogava. Todos sem exceção, fossem Pelures ou a sua mulher, os novos anjos, antigos demónios. Só havia duas criaturas que sabiam quem era aquela mulher. Rosa dos Ventos e, de certa maneira… Tio Maxime. Até Henri o ignorava, mas não Marilyn, que adivinhou a identidade desse ser de pele negra.

— Diz-me, Marilyn, percebes alguma coisa disto?

— Oh, sim, eu sei! Eu tinha ciúmes de Deus. Deus é esta mulher, Henri! Podes acreditar?

— Valha-me Deus, se eu não te tivesse amado, talvez tivesse feito amor com Deus. Ainda bem que ninguém se aproveitou dela!

Deus Flor prosseguia o seu sermão dirigido a Rosa dos Ventos. Já era tempo, pois toda a gente estava suspensa, presa às suas palavras.

Mais do que nobre, Deus conservou a mesma forma e a mesma cor.

— Em poucos dias, fizeste mais mal do que desde o princípio dos tempos. Não tentes fugir. Não levantes a mão desse corpo que perdeste de vista. Pudeste constatar que retomei o controlo da minha vontade. Vou prová-lo imediatamente.

Ao dizer isto, Deus fez um grande gesto, como se desenhasse um vasto círculo. Depois fez uma pausa e esperou.

— Então? Continuamos à espera! comentou Rosa, mais sarcástico e audacioso do que nunca.

E Flor continuou:

— Aquilo em que acreditas não é necessariamente aquilo que vês, Rosa dos Ventos. No entanto, voltei a pôr em ordem todos os livros da biblioteca situada à entrada do paraíso. Voltei a colocar no sítio todas as folhas da árvore que lá se encontra. Assim, as pessoas poderão recomeçar a vir até à eternidade e a dizer disparates na Terra para ganharem dinheiro. Também retirei os pesadelos àqueles que atormentaste com o meu computador. E repus e corrigi os estragos que causaste às minhas obras. Também fiz outra coisa: chamei de volta o teu corpo, que deverá aparecer dentro de pouco tempo. Mas quero sobretudo ocupar-me de ti.

— Então tenho de ir-me embora! Se alguns aparecerem no inferno e eu não estiver lá, corro o risco de os desiludir.

— Não será necessário. Eu substituo-te!

— Mas… não pode, eu sou o diabo.

— Talvez, mas eu sou Deus. (Reflexão divina.) Muito bem! Mas tens de prometer-me que farás terapia, rezarás e escreverás um diário pessoal sensato. Tens de te confiar a alguém. Dás-te conta disso, Rosa?

— Não sei. Falarei com uns psicólogos…

— Pronto, já é melhor! Começarás as tuas sessões com Freud e Jung, amanhã mesmo.

— Freud?… Eu não tenho sexo!… Jung? Eu não sonho!

— Muito bem, eu dar-te-ei o poder de sonhar. Ao dizeres isso, acabaste de me fazer compreender porque não és como os outros. Eu não te tinha dotado de um subconsciente, para manter sempre o contacto comigo. Quanto ao sexo, no teu caso, prefiro fazer-te esperar um pouco; dar-te-ei um quando estiveres mais equilibrado. Então poderei criar-te uma companheira feita à tua medida, disse Deus, pesando as palavras.

— Só para mim! Mas seria preciso que a minha cabeça fosse novamente unida ao meu corpo, e eu nem sei onde está o meu. Se o recuperar e fizer bem a minha dupla terapia… Você… eu… uma companheira ao meu gosto? Poderia ela ser muito peluda?

— Porque não? Mas terá um caráter diferente, porque neste momento exprimes desejos que correspondem ao teu estado atual. Como tens fortes probabilidades de mudar, os teus gostos também poderão mudar. Bem! Agora, fora daqui! Olha, aí vem o teu corpo! Sente-se a quilómetros de distância.

Flor-Deus retomou:

— E isso não é tudo; prepara-te, Rosa, para receber muitos visitantes e muitas visitantes que apenas passarão pela tua casa. Turistas vindos da Terra e de outros planetas. Decidi deixar de fazer evoluir às cegas os seres de todos os lugares. Já não terão de suportar ameaças nem descrições arcaicas do inferno ou de qualquer outro lugar maldito. As imaginações transbordantes de certos guias espirituais descreveram-nos como lugares indispensáveis.

Nunca quis desiludir ser algum, e nunca o farei.

Mas as religiões terão de evoluir de uma forma diferente. Assim, vou dar a todos os seres vivos, sem exceção, o poder de viajar da vida para a morte, e da morte para a vida, sem se extinguirem, como dizem os meus pequenos terráqueos. As decisões que as almas tomarão deixarão de ser justificadas ao acaso dos seus encontros… nem com base em qualquer traçado da sua existência. Serão observadas e verdadeiramente protegidas contra o mal, visto que ele deixará de existir.

— Posso dizer uma palavra, Deus? interveio Henri, algo inquieto com essa brilhante e divina ideia.

— Assim seja. Fala, Henri! respondeu «Flor, a divina», sorrindo-lhe.

— É que eu, que fui ao inferno com Marilyn para fugir de Rosa dos Ventos e dos seus soldados, apaguei com ela as fracas chamas do inferno que ainda restavam. Não acha que, se as pessoas visitarem o inferno, esses visitantes já não saberão onde estava o bem e onde estava o mal?

— Agradeço-te a tua compaixão para com os teus semelhantes. Esses visitantes estarão no inferno como em prisões desativadas que permitem visitas. Simplesmente isso. Recordarão uma certa história e acabarão por passar a outra coisa. Rosa dos Ventos, que já não terá os seus poderes, servirá humildemente de guia.

— Poderei vender fogo-de-artifício e postais! gritou Rosa.

— Estou feliz por Deus ter finalmente a aparência de uma mulher! cantou Marilyn. E sobretudo, que por causa da tua beleza, Flor, não tenhas sido violada quando procuravas a alma gémea!

— Agora, se me permitem, também vou finalmente conceder-me algum tempo agradável. Também me acontece ter vontade de me divertir. Aliás, convido-vos a todos, incluindo os que estão muito longe daqui, e também aqueles a quem envio mentalmente o mesmo apelo, a virem ao meu vernissage na «próxima semana…» Terá lugar perto da minha área de repouso.

— Eu também poderei vir? perguntou Rosa com entusiasmo, cujo corpo segurava a cabeça debaixo do braço.

— Veremos a evolução da tua cura.

— Já que está aqui, Deus, que vamos fazer com o caso de Marilyn Monroe e Henri Toutrec, dito Nom de Plume? perguntou Pelures, quase de rompante.

Deus não teve tempo de refletir, porque Rosa interveio, algo irritado:

— O quê! Esse anão é a alma que esperei durante um dia inteiro. Era ele que estava à porta do paraíso?! Minus Cule, onde estás? Vem cá, que eu quero falar contigo! Quero saber porque não me disseste nada sobre ele! Vá, mostra-te…

— Basta, Rosa! Minus Cule já não te obedecerá. Está como todos os teus cúmplices: tornou-se independente e foi transformado em anjo… sem cauda. Humano, enfim! disse Deus, autoritário.

Depois voltou-se para Pelures e dirigiu-se a ele:

— Eles amam-se os dois, não é verdade?

Pelures abanou a cabeça em sinal da aprovação esperada.

Deus voltou-se então para o casal, que aguardava uma resposta divina, segurando-se firmemente pela mão. Deus observou-os por alguns instantes, passando o olhar de um para o outro, sem sequer se ocupar do terceiro olho. Essa quinquilharia serve para os anjos. Por fim, dirigiu-se a eles.

— Quero agora ouvir a vossa resposta. Amam-se os dois incondicionalmente?

Marilyn e Henri responderam ao mesmo tempo, a uma só voz, à mulher-Deus.

— Sim!

— Então que o vosso Lulum comece o seu eterno vaivém de um para o outro e do outro para um. Assunto encerrado!

Apareceu acima de Marilyn essa esfera que tomava, uma após outra, as cores do arco-íris. Depois manifestou-se logo a seguir acima da sua meia-lua, Henri Toutrec. E voltou acima de Marilyn, e assim sucessivamente.

Marilyn e Henri lançaram-se nos braços um do outro e abraçaram-se ternamente, de olhos fechados, como para melhor se sentirem. Provaram assim a sua alegria durante tanto tempo que, quando afrouxaram os seus abraços, toda a gente à sua volta já tinha regressado a sua casa, ou partido para outro lugar no infinito. Incluindo Rosa e Deus.